Um céu

O céu é um campo de inspiração. É um ponto para semear ideias, para tentar enxergar além do horizonte, tingido de cor de laranja, durante o crepúsculo.

O céu não é o limite. É a graduação de pensamentos. Ora equivocados ora tão precisos em suas mais replandescentes ideias.

O céu é luz, mesmo na escuridão. As estrelas cultivadas com tanto esmero abrem-se em tanta luminosidade talvez para aplacar as dores dos encantos vencidos ou as dores de amores passados.

Mas, o céu perdoa quem o esquece de contemplar. Ele sabe que, dia mais dia menos, não passará incólume, porque é improvável que se olhe só para baixo, quando há um universo de contemplação bem diante dos olhos.

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5 comentários sobre “Um céu

  1. Querida Monica.
    Vc escreve de forma tão solta, leve como simplesmente jogasse a cabeça para tras sorrise e dissesse o que lhe vem a mente.
    Sobre o céu? Realmente ele é um campo de possibilidades e de refugio quando em varios momentos de nossa vida nos vemos como seres bipedes e cheios de erros e traumas ou ainda quando a situação neste plano terrestre se mostra insuportável e elevamos a cabeça para o alto e redescobrimos nossa verdadeira natureza, buscamos no céu um sentido ou cerramos os olhos na esperança de sermos vistos por ELE e por um instante vislubrarmos nosso lar. Gosto muito de Paulo Mendes Campos e de sua poesia, vez por outra ou quase sempro sigo um de seus conselhos quando ele fala da grandeza da obra de outro grande genio da poesia Mario Quintana. PMC diz sobre a obra de Quintana: ” a poesia é de quem se apossa dela “, ele diz isso pois reconhece que se inspira na obra do velho mestre, da mesma forma eu me aproprio de um de seus poemas e o dedico a vc, o cenário é o mesmo céu que vc descreve e o personagem esta a bordo de um avião na rota de Moscou a Varsóvia na Polonia. Uma pane do meio do céu e panico gritos o apocalipse. Mas no coração do poeta o que se passa? Lembranças, memórias, doces memórias pintadas como uma linda colcha de retalhos, enquanto a maquina humana que varria os céus cai como uma pedra vinda do infinito e prestes a se chocar contra o solo cumprindo a lógica da lei da gravidade. E um fim que revela para os que creem nos sentido da vida e no valor do sacrificio. Uma boa semana.
    Moscou-Varsóvia
    (26 MAIO 1956)
    Se este avião caísse, crispado entre os ouros, as copas e as espadas eu ficaria: sarrafos nas pálpebras: para que se mantivessem abertas durante o incêndio, colocaria:
    Se este avião caísse, as madrugadas de meu filho de um terror violeta se elucidariam: na tarde calcinada, a sombra de minha mulher se inflamaria: minha filha não me encontraria deitado sobre o feno, escondido atrás da porta, acima dos cataventos com os braços carregados de bonecas, mais do que a minha garra em um livro e um lírio não encontraria: um gesto no espelho, uma espátula de osso, um pensamento;
    Se este avião caísse, em uma esquina de Ipanema, eu nunca mais esperaria:
    Se este avião caísse, só uma pessoa não diria “que pena” (a que caía e se esquecia e se consumia, e só se libertaria quando de todo caísse e se esquecesse e se consumisse);
    Se este avião caísse, de mim o firmamento em torvelinho se afastaria; os mortos da Lituânia e da Masuria a mim viriam, e no silêncio rodeado de verdura me receberiam; soldado quase desconhecido, mãos desligadas do corpo exangues — e sem armas — ah, a terra de ninguém eu atravessaria;
    Se este avião caísse, de arquitetar a condição da criatura um arquiteto a mais desistiria: certo de que outros chegarão a construir a humana arquitetura (o que se faz há muitos anos e se fará em um dia); pousado sobre o meu peito, o pássaro cruento do meio dia; o criptográfico egípcio afinal se explicaria; em fragmentos candentes, a minha carne emigraria; espantalho em farrapos, só o vento de leve me espantaria;
    Se este avião caísse, sob as arcadas do pátio a poça de sal se extinguiria; a minha túnica amarela entre os anjos se sortearia; sob as telhas dos dragões dourados, os seus, flocos, indiferente, a paineira sacudiria; na colina resplandecente, quem soubesse ler, leria: “aqui pousou uma criança que quase nada compreendia” até que outra morte nos separe, o meu nome no tronco se resignaria;
    Se este avião caísse, este papel em cinzas arderia; a estrela rubra do poema nenhum jornal publicaria; fosse cair daqui a pouco, ainda assim o escreveria; a vida e a morte são as amantes, são a esposa da poesia;
    Se este avião caísse, os meus vizinhos compreenderiam; lembrando-se dos meus cabelos no elevador, uma intuição qualquer no ar lhes diria que só não fui um amigo por falta de tempo ou covardia; mas pode alguém perfeitamente amar o seu vizinho se apenas, grave, pela manhã lhe diz “bom dia”; e então; sentimentais e sem razão, de mim, coitados s e apiedariam; e de se sentirem tão sensíveis, em fino prazer espiritual tudo (de mim) enfim se acabaria;
    Se este avião caísse, a musica de meu apartamento ensurdeceria; os volumes nas estantes, de já não ter quem os lesse como eu os lia, pardos e fechados ficariam; outros mais sábios vir e servir-se poderiam; mas o meu jeito de ler e pensar desapareceria; no entanto, se este avião caísse, daquilo que é apenas meu a orgulhar-me não chegaria;
    Se este avião caísse, já ninguém mais meditaria na ave que passou gemendo contra o vento na bruma fria; o segredo que não cheguei a tocar a ninguém mais preocuparia; só se a meu filho legasse a vocação da tristeza e o heroísmo da alegria;
    Se este avião caísse decerto me compadeceria dos que caíssem comigo sem a coragem da poesia; embora talvez fosse eu quem mais saudades levaria; poentes roxos de Minas, praias aéreas da Bahia; chapéu de palha de Leda, olhos castanhos de Lília; pubescência de Teresa, experiência de Maria; prosadores da Irlanda, poetas de Andaluzia; Iangtsê em Nanquim, das velhas em Santa Luzia; Etna fumegando em Taormina, em Sienna a Piazza della Signoria; manhãs de iodo na praia, noites etílicas de boêmia; bailarinas de Leningrado, gaivotas da Normandia; sorriso de menina, do menino a euforia; Wagner compondo Parsifal, Nietzche uivando em Sils Maria; a mulher que foi comigo, a que não foi mas iria; tantas que, mais houvera, para que de vez caísse, pediria;
    Se este avião caísse, com ele cairia um homem que pelo menos entenderia a fábula da folha que se desprendeu e desaparecia; e assim seu coração, na terra, no mar e no céu, como de triste e maduro caísse, não se surpreenderia, nem reclamaria; pois esse aflito coração, de ter amado e sofrido, na amplitude da morte se conformaria;
    Se este avião caísse, em um domingo azul um peixe até a pedra nadaria; não encontrando o meu anzol; ao alto mar regressaria; desse desencontro tecido de tão lindos equívocos, a sua carne se salvaria; e o domingo azul do mar ainda mais azul reluziria.

    Paulo Mendes Campos

    1. Douglas,
      Obrigada por revisitar este espaço! 😉
      Muito honrada com o poema a mim dedicado. Gostei deveras.
      Aliás, “a vida e a morte são as amantes, são a esposa da poesia” “embora talvez fosse eu quem mais saudades levaria”.
      Puxa, poema intenso!
      Obrigada pela intensidade de comentar por aqui!
      Boa semana, meu querido! 😉

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