Que saudade caligráfica! – Coluna nº 22

Temos saudade de muitas coisas e pessoas. Temos saudade do tempo que passou e, este sim, não volta mais. Mas, o tempo também leva a saudade, quando algo ou alguém passa a não fazer diferença alguma. E a saudade vira mesmo esquecimento. Um ponto vago. Um nada de um tudo em que a gente acreditava. E isto é mesmo um aprendizado deste círculo virtuoso de viver. É bom esquecer certas coisas, embora elas sejam parte da gente.
Há saudades interessantes. Saudade de emoções, de descobertas, como quando a gente conhece algo ou alguém que transforma tudo para melhor. E há saudades que são despertadas daquela hibernação dos nossos recônditos da alma e acabam vindo à tona de repente, trazendo tão boas lembranças…
Neste mundo digital em que o tempo todo trocamos mensagens pelo celular ou pelo computador, me bateu uma saudade diferente… Uma saudade caligráfica. É! Saudade de letras escritas à mão. Cartas, bilhetes, dedicatórias. Aqueles pequenos papéis, que uma hora ou outra, a gente encontra dentro da bolsa, da carteira, numa folha da agenda, num caderno de anotações visitado por alguém, que talvez a gente nem veja mais. Não estou falando somente de alguém que a gente gostou, daquele amor que acabou, mas de um amigo, de um colega, de um irmão, da mãe, do pai, que talvez não estejam mais entre nós.
Reconhecer a letra de alguém no nosso relicário interno é uma emoção, uma inspiração. É algo para sempre, porque a gente nunca fica encontrando e-mails no dia a dia, como o mágico que tira o coelho da cartola. Eles acabam perdidos. A gente deleta… mesmo que os encontremos, eles não passam de traços de Times New Roman, Arial ou Calibri.
O contato com uma letra de verdade, cunhada ali com a impressão de alguém, com seu estilo de escrita, com seu garrancho, letra gótica ou aqueles traços milimetricamente apaixonantes, é algo que desperta lembranças, que a gente guarda e é tão bom encontrar de uma hora para outra! É como se a gente, só de olhar aquela letra, tivesse contato com a personalidade de alguém. É algo que não dá para mudar. Não é como a SMS que a gente recebe no trânsito, pede para alguém ler e responder. Não é como o e-mail que já está lá com a frase pronta, basta dar um Control C e um Control V e assinar com tantos tipos de letras.
A caligrafia é para sempre. É algo nosso. É a nossa impressão, é uma parte de nós, que vem se perdendo com a tecnologia, que nos apresenta a praticidade de sermos ágeis e imediatos, mas cada vez mais distantes.
Deixemos um recado para alguém hoje. Um recado bonitinho, nem que seja um bom dia com uma carinha de riso. Porque ele ficará guardado no nosso relicário de boas lembranças e virá à tona em um momento preciso e precioso. Namastê! Imagem

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8 comentários sobre “Que saudade caligráfica! – Coluna nº 22

  1. Que bonito Mônica!
    eu ainda recebo cartas 😀
    Faço parte de um grupo de voluntários de um projeto chamado Correspondentes. Incentivo a leitura e escrita de crianças e jovens carentes.
    Tb tenho saudade de qdo a gente se expressava mais escrevendo….os maços de cartas e cartões, os cartões postais que peço até hoje…tudo embrulhado com fita até ficar amarelinho..
    Não existia o delete naquela época..rs
    beijos e ótimo texto como sempre!

    1. Ah, que delícia, Patrícia! Isto, realmente, é uma dádiva. Parabéns pelo seu trabalho. Fico muito contente, porque estas cartas não “têm preço”. Mesmo que fiquem todas amarelinhas, em função do tempo, são expressões de carinho, de vida.
      Obrigada pela passagem por aqui!
      Beijo,

  2. Eu amei a sua matéria, li ela hoje no jornal e ñ resisti e entrei no seu blog, e simplesmente achei fantástico os textos que você escreve. eu ainda sou do tipo que escreve sobre tudo e todos, desde pequena eu escrevo meus diários e conto sobre tudo q aconteceu comigo sobre como estou mi sentindo é uma forma que eu tenho de mi distrai e de viajar para outros mundos… a escrita é uma forma maravilhosa de expressão e ñ deve ser esquecida,pedaços de papeis mesmo que amarelos são as melhores lembranças que si poder ter para guardar e relembrar. bjos e obrigado pelo texto maravilho

    1. Oi Cristiane! Obrigada por ter passado por aqui e por ter me prestigiado no jornal.
      Fico contente por você ser uma “mulher de letras”.
      E escrever diários ainda é mais interessante, porque podemos rememorar o que vivemos. Tudo com nossa letrinha!
      Um beijo e até breve,

  3. Bom noite,

    As palavras escritas à mão têm cheiro, cor e alma. É tão bom revivier o ontem no momento agora quando se lê uma dedicatória em um livro comprado em um sebo, ou quando se vê fotos da época de nossas pais.

    Japinha, + 1 x, vc matou a pau.

  4. Concordo com vc. A caligrafia é uma arte, que para os arabes revela por traços unicos do contato direto da tinta sobre o papel: sentimentos e idéias de um individuo. A individualização no entanto chegou até nós pelas fontes e o recortar e colar da era da informação. Avançamos muito em tecnologia mas perdemos a cada dia muito de nós mesmos. Preferia ter escrito isto a vc em uma folha de papael, mas infelizmente ou felizmente ainda podemos nos expressar de tal maneira e dizer que sim vale a pena restabelecer alguns costumes que tem se perdido. COMO NESTE MOMENTO A CALIGRAFIA E AS CARTAS. Vou te deixar um fragmento de um poema de Raymon Chandler que trata bem do valor da saudade, da memória e do poder de uma folha amarelada e amarrada em uma fita. O tempo passado e cristalizado como uma pequena jóia que magicamente volta a brilhar como nunca antes brilhou, ou de uma vela apagada que volta a se acender com impeto e irradiar seu calor e sua chama arde como nunca antes havia ardido: “Mas existem sempre as cartas.
    Eu as seguro nas mãos, amarradas numa fita verde,
    com firme pureza entre os suaves e fortes dedos do amor.
    As cartas não morrerão, esperando pelo estranho que virá lê-las.
    Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança.
    Virá lentamente, desafiador, pelo correr dos anos
    cortará a fita e as espalhará a sua volta
    e cuidadosamente as lerá página por página.

    E a antiga inocência do amor voltará
    Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança,
    suave como uma borboleta por uma janela aberta no verão
    só por mais um momento, em silêncio, para estar perto,
    mas o estranho nunca saberá. O sonho acabou.
    O estranho sou eu.

    (Raymond Chandler, trad. Newton Goldman (Folha de São Paulo de 02.02.1986 – no Folhetim)

    1. Douglaaaaaas! Puxa, que belo presente para uma segunda-feira! Muito obrigada por seu comentário tão inspirador.
      Adorei Raymond Chandler. O fim tem a minha cara. Será que todos somos estranhos, mesmo achando que não? 😀
      Adoro filmes épicos e você falando da carta, com a fita amarrada, me fez lembrar de tantos que assisti. Lembrei do glamour da fita, por vezes, vermelha.
      Ah, o sonho não acabou! E é revivido nas folhas amareladas que, vez por outra, a gente acha nos nossos relicários.
      Um beijo, querido.
      Obrigada! 😀

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