Diante de cacos

Fiz uma prece em silêncio. Fui varrer os cacos no chão. Os cacos de mim mesma. Talvez fosse um coração partido. E quando alguma coisa parte, mesmo que seja de vidro, dá uma dorzinha no peito. Aquela coisa do apego. Ninguém quer nada quebrado. Dividido. Repartido. Esmigalhado.

Refiz minha prece. Ofereci para Nossa Senhora do Coração Partido. Quem sabe ela não pudesse socorrer-me? 

Fiz mais uma prece. No silêncio de mim mesma. Lembrei que a vida não tem “Control Z”. Que cada segundo é sagrado e já se foi. Olhei para os cacos no chão. Senti saudade deles unidos, embora soubesse que eles iam se quebrar. Estas coisas são sensíveis, claro. Como eu pude esquecer?

Fiz uma prece diante do meu reflexo entre os cacos. Varri tudo de dentro para fora, que é mais difícil do que fazer o inverso.

Fiz uma prece. Desta vez para mim mesma. Para meu anjo da guarda. Bombril o nome dele. Porque tem 1001 utilidades. Sorri. Mas, perdi perdão logo em seguida.

Pedi perdão para os cacos no chão. Para tudo que se quebrou. E a redenção veio como a luz do meio-dia, brilhando no meio do meu caco. Do caco de mim, que eu recolhi para reconstruir outras coisas. De um todo que sempre foi meu.Imagem

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2 comentários sobre “Diante de cacos

  1. Bom dia. Seu texto é maravilhoso fala sobre desastre, dor, e a dificil arte de recomeçar e sobre o milagroso balsamo regenerador que é o perdão, tudo isto tem muito a ver com a Fenix que ressurge das cinzas, ou ainda com o conto da aguia solitária que decide pela vida passando pela dor do renascimento em um precipicio desolado e terminando a fabula de uma garotinha que após ter seu castelo de areia destruido pelos pés desantentos de um adulto, esta menina chora diante daquele monte de areia mas ao sentir o calor do SOL acariciar sua pele e a brisa fresca acariciar seu rosto volta-se feliz ecorre para junto do mar celebrando a vida. Penso que foi disto que voce falou, portanto pegue este seu pequeno caco como voce mesma o chama, tome esta jóia e aguarde com carinho e continue sonhando e fundamentalmente vivendo. Obrigado voce nos relembrou de uma grande lição.
    “…Mas eu, sendo pobre, tenho somente os meus sonhos; Eu espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés; Pisa com cuidado porque pisas os meus sonhos.” W. B. Yeats

    1. Boa tarde, querido Douglas!
      Ah, muito obrigada pelos seus elogios e obrigada pela visita por aqui.
      Quão profundo foi o que você publicou, hein?
      Sinto-me honrada e, claro, aprendo com seu bom gosto.
      Um beijo e até breve,

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