Pela loja de conveniências – Coluna nº 35

Com os anos chegando implacáveis, ela entrou apressada na loja de conveniências. Foi à seção “urgências”. Olhou a prateleira com propriedade, mas ainda faltava-lhe o foco. Uma placa piscava uma luz intermitente, como se fosse um giroflex: “Hora de ter um filho”. Teve um sobressalto. Mas, com tanta coisa a seu dispor, decidiu dar uma olhada em tudo. Afinal, era preciso escolher algo que, realmente, conviesse. Lógico, levando em consideração as pressões sociais, agigantadas por parentes, amigos e pessoas do convívio ou aquelas que se encontra, do nada, e que fazem sempre as mesmas perguntinhas. “Casou? Nããão? Como assim? Mas, tá namorando, né?”. E quando as respostas são negativas, parece que você não é mais gente, mas um monstro que não é capaz de procriar. Um monstro infértil, como se a vida fosse, em momento obrigatório, apenas “gerar descendentes”.
Ainda acreditando em contos de fadas, ela chegou ao balcão e perguntou à atendente: “Tem Príncipe Encantado?”. Por sorte, a interlocutora foi verdadeira: “Havia uns genéricos, mas agora está em falta. Acho mesmo que não vai chegar nunca mais. Só tem cafajeste. Serve?”. Pensou por um momento. E preferiu o silêncio, antes que a conveniência lhe impusesse mesmo a cafajestice.
Andou por ali, com conveniências de todos os tipos sempre à espreita, clamando atenção: “Casamento de fachada”, “Amigos por Interesse”, “Marido de Aluguel”, “Corno Manso”, “Produção Independente”, “Carro do Ano”, “Velho Rico”, “Oportunismos de Várias Naturezas”. Espantava-se com tudo o que tinha na loja de conveniências, porque sabia que muita gente – até aquelas bem próximas – andava fazendo uso daqueles “produtos”, com o mínimo de decência. Era tudo para fazer as vontades de uma sociedade opressora, que não quer saber se você está a fim de casar ou de ter um filho (ser mãe ou pai). Ela quer que os ditames sejam seguidos e classifica os que fogem à regra, de transgressores, solteironas, infelizes, malsucedidos. Será?
Façamos um exame de consciência. Quanta coisa a gente já fez para seguir a uma tola “regra”, porque não teve coragem de dizer não? Pelo menos uma vez, a maioria de nós já sucumbiu à tentação de achar-se feliz com uma conveniência imposta. Algo que a gente não tinha certeza, mas que acabou gostando, porque, de fato, foi conveniente. Só que a conveniência dura pouco. Até quando vamos fazer tudo o que convém, só para tapar o buraco da aceitação social, vivendo uma vida de artificialidades, cheia de desgostos e frustrações? É hora de sair da loja de conveniências, sacodir a poeira e viver uma vida de verdade. Sem rótulos, julgamentos, imposições. Mas com liberdade e respeito. Respeito às suas vontades. Namastê!

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5 comentários sobre “Pela loja de conveniências – Coluna nº 35

  1. Japinha, vc é o máximo: “príncipe genérico e pior, ainda em falta” é brincadeira rsrs

    Vc me deu uma ótima idéia, pena que foi semana passada e a resposta poderia ter sido: Não estou só, fui numa loja de conveniências e comprei uma boneca inflável. olha só:

    Encontrei perto de casa, um casal de amigos que a tempos não nos víamos, trocamos um rápido papo e fizeram-me o convite de: “anota nosso telefone, tbé moramos em Guarulhos, ligue pra tomarmos um café”, até aí maravilha, só que de repente, a amiga pergunta: – e aí, casou de novo? Como respondi que não, pois não tinha encontrado a metade da laranja (rs). Com olhar sei lá de que, ela emendou – puxa, mas vc está sozinho, cara tem tanta mulher.

    Nem preciso explicar.

    Beijos – Namastê.

    1. Ah, meu querido, as pessoas sempre fazem as mesmas perguntas, como se a vida da gente se limitasse a “estar com alguém”. Ninguém pergunta por onde estivemos, quais são nossos anseios, que lugar ainda visitaremos. E somos todos tidos como “infelizes” e incapazes de encontrar o amor. É mole ou quer mais?? kkk… Vamos mudar isto!! A cada pergunta chata, uma outra melhor!

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