A solidez que se liquefaz – Coluna nº 44

Durante uma vida inteira buscamos a solidez em tudo. Queremos relacionamentos sólidos, concretos. Uma saúde imbatível. Uma fortaleza inquebrantável diante dos maus bocados aos quais estamos suscetíveis quase todos os dias. Queremos tão poucos percalços que seria melhor vivermos dentro de uma redoma, embora tantas de nossas proteções sejam tão frágeis e infantis.
De uma hora para outra, quando não nos sentimos preparados, a perenidade do que acreditávamos vira a fugacidade descomprometida. Relacionamentos outrora sólidos se liquefazem, fogem das mãos, trazendo angústias e aquele buraco no peito que ninguém quer sentir um dia. A fortaleza com que combatíamos as agruras do destino rompe-se, tijolo por tijolo, deixando-nos expostos à fragilidade que gostaríamos de esconder.
E tudo que era sólido se liquefaz, mostrando forças que pensávamos poder controlar. Liquefeitos viram os sentimentos perdidos no visgo. Convertendo-se em lágrimas, sangue. Gelo derretido no copo de alguém. No nosso copo.
Sonhos e desejos tão sólidos viraram vertigens no descomprometimento diário de deixar tudo em segundo plano. No plano B da vida, quando já não há alternativas, a não ser agir. Mudar. Transformar. Solidificar de novo, mas se preparar, com atenção, para a tempestade das emoções que não se esperam. Que chegam tirando tudo o que achávamos importante. Até que num momento de brandura, a visão – outrora distorcida – nos faz enxergar que aquilo tudo era tão líquido, como a enxurrada que subia na calçada, molhando os pés dos desatentos.  Já é hora, portanto, de não nos molharmos mais com o que se liquefez. É, sim, a hora de liquidar o que não vale a pena e comprometer-se, de fato, com o que há de sólido no dia de hoje, pois o amanhã ainda está tão longe! Aliás, a nossa palavra pode ser tão sólida, mas pode se liquefazer em segundos, quando não nos empenhamos de fato, quando justificamos que falta tempo, mas, na verdade, falta comprometimento. Não nos comprometemos conosco e tampouco com os outros. Dizemos que vamos ligar e não ligamos. Prometemos doações e não fazemos.  Dizemo-nos caridosos, mas não fazemos nada pelo próximo. O ano está acabando e talvez tantos de nossos sonhos tenham ficado no Plano B, se liquefazendo aos poucos pelo esquecimento matutino e o descomprometimento que anoiteceu tudo.
Ainda há tempo de ser diferente hoje e liquidar o que não faz bem. Tirar tanta solidez do próprio coração, convertendo-a em sentimentos que ali deveriam estar sempre solidificados na certeza de que o amor faz a diferença.
Agora eu me despeço com o até breve de quem tira férias. Aos meus leitores, o meu blog estará na ativa. Até novembro! Namastê!

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4 comentários sobre “A solidez que se liquefaz – Coluna nº 44

  1. Gostei..Mônica..Quando era menino ,queria brincar,nadar na lagoa..odiava ir a escola,era melhor jogar bola.quebrar vidraça do vizinho,sonhava ser caminhoneiro com aquele alfão tututututu nas estradas ,meu pai era duro,muito familia,correr atraz de balão,brigar na rua ,que delicia..Fiquei moço sonhei,estudei,trabalhei como louco,construi,horas extras,sonhava em ter uma esposa,um carro,uma casa,dois filhos..consegui tudo.mas eles cresceram,tropessaram na rota,sofri,queria eles mais estruturado,endureci,não sedi,tomei pé na bunda,hora da solidão,3 idade,falta carinho,doença emocional,procurando amor,sonhador ,mas acho que amei,mas não adianta e o buraco no peito,sim refazer, velho, apaixonado pela vida,,,sim recomesar , não sei se tenho rudas não olho muito no espelho,penso como 18,amo como 18,bom humor sempre ,rir da desgraça ,conforto , olho jesus,,só amor.
    AMAR SEMPRE ,MESMO NÃO SENDO AMADO FAZ SUA PARTE NO ACORDO COM DEUS com a vida.ESTAMOS AQUI NA TERRA POR AMOR

  2. Monica. Antes de me despedir gostaria de dizer algumas palavras. Compartilho do que vc disse. Amor liquefeito, uma palavra dita de maneira franca e direta e então o silencio do telefone, o vazio da caixa de e-mails, o vazio do corredor e simplesmente apenas a saudade e a busca sem fim da pequena palavra” porque”. Sebastião usou de sabias palavras, penso que o amor a semente pura que o Criador concebeu em mim seja algo que devo preservar, talvez na ansia do menino que faz a velha experiencia escolar de plantar um grão de feijão em um pedaço de algodão acomodado em um copo de vidro, ao vermos a semente começar a se transformar em uma pequena plantinha verde, encantadora, ficamos ansiosos e nesta ansia colocamos agua demais na plantinha e então fim. Mas a semente o grão resiste, percebi isto pois devo ser humilde e reconhecer esta semente pequena e perfeita como uma pérola foi plantada pelo Criador nao por mim, é meu dever acolhe-la protege-la e cultiva-la, assim ele o Criador podera novamente recomeçar uma nova História. Monica boa viagem. Antes de terminar apenas uma conclusão. Tudo o que as vezes queremos fazer é aquilo que é certo, mas parecemos não ser entendidos e então o conflito, o medo do novo, a ruptura. Então nosso castelo erguido sobre a ceteza, a esperanca e o futuro desmorona como um castelo de cartas. Mas resta o amor que é a essencia daquilo que deve ser protegido e acolhido com todas as forças no processo. Meus agradecimentos a vc e ao Sebastião.

    1. Profundo, Douglas! Agradecemos você também pelo lindo comentário.
      Enfim, o amor é o que nos resta. E que ele não seja o resto, a sobra. Mas, que ele seja tão grande de forma que não falte para ninguém.
      Abraço fraternal,

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