Vociferando

Prestei atenção na voz que falava. Era a minha. Nunca tinha a ouvido com tanta propriedade. Propriedade própria mesmo. Aquela coisa infinitamente nossa, embora esquecida na universalidade das coisas.

Escutei o que dizia. Gostei das palavras e da entonação. Nunca havia prestado tanta atenção.

Por quê?

Tenho esquecido de ouvir-me. Ouvir a voz que fala para fora e a voz que fala de dentro. Parecem ter os mesmos sons, mas são diferentes. A de dentro é mais sublime, calma. A de fora, por vezes se esganiça. Se irrita. Grita. Se mete em enrascadas. Mas, as duas são uma. Uma personalidade, de propriedade. Toda minha.

Prestei atenção na minha respiração, que se perdia em cada desatino posto para fora, enquanto por dentro as coisas pareciam estar no lugar certo. Talvez tenha bebido demais. Talvez tenha prestado atenção de menos.

Ouvi minha voz vociferando. Pela primeira vez a de dentro bradava. Queria sair dali, talvez desritmando a toada de fora, que agora estava pretensamente sob controle.

Apesar de tudo, a voz tinha uma certa brandura. Aquela que a gente quer um conforto. 

Ouvi de novo. Ouvi-me. Falei em notas. Cantei. Uma música para mim mesma. Só para abrandar tudo por dentro.

Tudo que era propriamente meu, embora muita gente tenha querido se apropriar. De mim. Da minha voz. Que era tudo o que eu poderia escutar. Na solidão de mim mesma.

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