(Por) Mais papo e menos intolerância – Coluna nº 46

As publicações nas redes sociais têm muito a revelar. Mesmo as asneiras trazem consigo boa parte de seus autores. Nas coisas, aparentemente, inofensivas descobrimos também a intolerância a pequenos gestos, àquelas coisas corriqueiras do dia a dia.
Eis que uma amiga publicou que adora que puxem papo com ela em lugares públicos e que tinha conhecido duas senhoras que lhe falaram tudo a respeito de dieta sem glúten. Finalizou, de forma poética, dizendo que “É assim que – de vez em quando – o amor se manifesta em São Paulo”. Gostei tanto daquele olhar de ternura, que fui lá e comentei. Mas, aí vi outros comentários que me brocharam e me deram a oportunidade de escrever sobre isto hoje.
Algumas pessoas disseram que “ODEEEEIAM” (isto mesmo, com letra maiúscula) que puxem papo. Que evitam ao máximo qualquer destas investidas e quando acontece tratam logo de cortá-las. Houve quem dissesse que a melhor invenção da humanidade foi o fone de ouvido.
Os comentários foram bem providenciais. Um dia antes eu tinha passado uma bela jornada com minha mãe num Pronto-Socorro público. O saguão estava até mais vazio do que os hospitais do convênio.
Havia toda sorte de gente ali.
Enquanto as senhas eram chamadas, um jovenzinho se aproximou. Não lembro muito bem o que disse, mas logo que respondi, pulou uma cadeira e sentou-se ao meu lado. Estava sozinho e cheio de bolotas vermelhas no rosto e no braço. Era uma reação alérgica.
Tinha 19 anos. Contou-me que trabalhava numa roseira, das 7h às 19h, e que ganhava R$ 400. Resolvi perguntar de seus pais. E aí ele me disse que seu genitor batia muito nele e em seus irmãos. Que havia chegado a proibi-los de ir à escola dizendo: “Prefiro um filho burro do que desviado”.  A mãe tinha se amasiado com outro e nem queria vê-lo. Disse-me que morava no sítio do patrão, não sei em quais condições. Em nenhum momento, aquele menino reclamou da vida, nem mesmo quando foi chamado para tomar uma injeção e sua apreensão era visível. Tomou a picada, saiu e se despediu.
Olhei-o indo embora, contente. Pensei o quanto ele já havia sofrido até então. O quão dura era aquela vida de sol a sol para ganhar R$ 400. E o quanto a gente pode aprender com um papo puxado do nada. Um papo que não era furado. Mas, um papo que nos demove do individualismo que invade as metrópoles e deixa as pessoas cada vez mais apáticas aos seres humanos e aos sentimentos. Precisamos de trocas, de tolerância. Porque conhecer um pouco os outros mostra o quanto ainda precisamos conhecer um pouco de nós. Namastê!

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11 comentários sobre “(Por) Mais papo e menos intolerância – Coluna nº 46

  1. Mônica,

    Fabuloso o que escrevestes; precisamos meditar sobre isso.
    Que possamos a cada momento perder o medo de nos conhecer e saber algo mais sobre quem convive conosco. Sejamos então mais tolerantes e amorosos com cada ser que a Vida colocar em nosso caminho.

    Gratidão!

    Namastê!

  2. Gostei muito do texto. Fato: o fone de ouvido também é uma ótima invenção para seres egoístas. Diga-se de passagem, antes um item indispensável apenas na “aborrescência”, hoje adotado até em ambientes de trabalho para evitar colegas. Mas, voltando ao assunto tolerância, seu post me fez recordar quando era universitário e utilizava o transporte público diariamente. Ouvia histórias belas e tristes de gente humilde, livre de interesses. Era um grande aprendizado.

    1. Olá Rodrigo! Obrigada pela visita ao blog e por comentar!
      Sim, no transporte público a gente sempre ouve histórias das mais diversas e isto nos faz pensar na nossa vida e na nossa “missão” no mundo. E esta, sem dúvida, deve ser a de distribuir o melhor de nós para e onde estivermos. Um abraço e até breve!

  3. eu sou do tipo de pessoa q não consigo estar perto das pessoas e não conversar com elas,mas infelizmente há pessoas assim ,mas não vamos mudar o nosso jeito,somos felizes assim e pronto,adorei o seu blog .nem te conheço e já gosto de você.

    1. Oi Wanderli! Obrigada pela passagem por aqui! Acredito que pequenas atitudes podem nos trazer grandes ensinamentos. Se alguém vem a nós que sejamos educados e enxerguemos luz nos nossos “irmãos”. Um abraço e obrigada por já gostar de mim!

  4. Mônica, lembrei de uma situação… Estava voltando pra casa de ônibus. Tinha acabado de acordar (dormir no ônibus é bom pra caramba!) e ouvi o papo de duas senhoras (de 40 ou 50 anos e poucos…) que estavam no banco ao lado. Uma disse pra outra que estava muito cansada. E contou o que lhe havia acontecido recentemente: “Como de costume eu recolho os lixos (pela manhã) e coloco na calçada para os coletores levar. Só que nesse dia, ao invés de deixar o saco na calçada, eu o levei comigo como se fosse uma sacola. Peguei a lotação. Peguei o metrô. E continuei com o saco de lixo na mão. Lembro que um homem ficou me olhando feio no metrô. Eu quase que falei pra ele: sai fora nojento!! Só fui perceber que a sacola era na verdade um saco de lixo na Estação República”. A sua colega ria bastante. Até eu, de olhos fechados também ri.

  5. Grande Japinha – eu tava com saudades de falar com ocê muié.

    Abaixo aos fones de ouvido, aos celulares, precisamos de mais olho a olho, de sermos o que somos, seres humanos.

    Beijos

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