Por gratidão e não obrigação – Coluna nº 59

Quando a gente é criança, há aquela vontade de crescer logo, desbravar o mundo de gente grande. E no meio desta ansiedade sempre aparece alguém para cortar o barato: “Curta esta fase porque o tempo não volta mais”. Aquilo soava como um conselho chato, embora fosse quase uma sentença.  Lembro-me da minha mãe falando que os “anos são degraus” e que a responsabilidade era um dos ônus dos adultos. De fato, eles sempre me pareciam muito cansados e reclamando das mesmas coisas.
Mas o tempo passa muito rápido e algumas expectativas se transformam em cinzas.  Não dá nem tempo para pensar e já aconteceu. E a gente cresce e fica com saudade de voltar a ser criança, com menos preocupações, menos responsabilidades, um menos de um tanto de tudo que hoje é mais.
Dia desses li uma destas postagens na rede social dizendo que os filhos não têm obrigação de cuidar dos pais. Pensei nos meus estimados genitores e em quanto, diante da passagem do tempo, o papel se inverteu entre nós: eles precisam muito mais dos meus cuidados do que o contrário. De fato, os anos são degraus… E nós, hoje, estamos numa escada em que eu preciso estender-lhes a mão ou até carregá-los no colo, como faziam quando eu era uma criança.
Aquela frase da “obrigação” ficou martelando na minha cabeça, justamente porque amor não tem de ser por obrigação. Porque gratidão também não tem que ser por obrigação. São todos sentimentos que brotam dentro de nós de forma tão intensa, nos preenchendo com um conforto que nos move a agir. E a agir com carinho, com cuidado, com espontaneidade, sem medida, sem culpa e às vezes, até sem pensar. Gratidão se aprende. É como um braço do amor. Um abraço. Mas, em alguns lares, onde não há amor, sequer alguma espiritualidade, a labuta é um caminho árduo.
Lembrei-me do moço da padaria dizendo que odiava a mãe. E aquele “odeio” era como uma válvula abrindo a porta do inferno vivido, dia a dia, na casa dele. Cada frase recheada de raiva era a exaltação da falta que o amor fazia. Era o bafo devastador da incredulidade em Deus. Era um vazio, um buraco, onde o ódio virava vilão natural, porque estampava o retrato de uma vida inteira. E retratos não se comparam: cada um tem o seu, com características únicas.
Neste mundo de tantas diferenças, tanta descrença, a gente sabe que de obrigações a vida está cheia. Fazer o bem por obrigatoriedade não faz bem. Agradecer só para fazer tipo não é gratidão. Amar por obrigatoriedade não é amar. O que é natural, espontâneo, vindo de lá de dentro de nós, é o que vale. Sem medalhas de ouro. Sem bajulação. Só porque amar vale a pena. E gratidão também. Namastê!

M. Kikuti

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