Entre vitae e mortis – Coluna nº 60

Os nossos insucessos são esquecidos dentro da gaveta para que não lembremos deles, embora venham à tona nas horas em que menos esperamos ou são resgatados por nós mesmos do meio do lodo de pensamentos.
No fim do ano passado, um leitor me enviou algo muito instigante. Era uma pequena transcrição de um bate-papo entre os filósofos Mário Sérgio Cortella e Terezinha Azerêdo Rios. Eles falavam do curriculum mortis, o oposto do curriculum vitae, tema muito bem exposto em um texto do também filósofo Leandro Konder.
Em dado momento do diálogo, Terezinha diz que ninguém coloca no curriculum vitae “reprovado no concurso em 1985” ou “traído pela namorada na primavera de 2002”.
De fato, inúmeros itens fazem parte do curriculum mortis, e talvez esta “documentação do insucesso” seja uma mola propulsora para as conquistas do curriculum vitae. Aprendemos – ou ao menos deveríamos aprender – com o que não dá certo, por conta dos erros, falta de habilidade, medo ou outros “n” motivos.
Vivemos numa labuta opressora e constante entre perdas e ganhos, onde não dá para ser 100% vitorioso em tudo, por mais que nos exijam a primazia, a excelência, os passos meticulosamente calculados, num curso cada vez mais robótico de vanglórias de hipocrisia. Não dá simplesmente para apertar o Ctrl+z da vida e voltar atrás, apagando o que não convém, como se fôssemos uns super-heróis que encaram a Sala de Justiça, escondendo as imperícias como forma de consolo ou conforto.
É preciso superar o que vai para o curriculum mortis e também aceitar melhor as críticas. As nossas próprias e as dos outros, embora muitos usam desta artimanha para fazer assédio moral, humilhar ou mesmo colocar holofotes sobre a sombra dos nossos fracassos. E isto não é construtivo e tampouco justo.
No ciclo curriculum mortis e curriculum vitae podemos extrair o bom do ruim, enfrentar as dificuldades, sem se deixar extenuar pela dose de kryptonita que o universo nos envia. Aceitar, não deixando puramente o derrotismo bater à porta, entrar, se sentar e bater palminha por mais alguma coisa lançada nos autos do curriculum mortis. Aceitar que não é demérito perder, embora sejamos treinados para competir e ganhar. Aceitar que não é vergonha errar e que os erros estarão no nosso compêndio – um pouco mais justo – de vida.
E quem sabe, durante a nossa trajetória de vitae e mortis possamos reescrever as páginas curriculares, com emoções verdadeiras, lágrimas, sorrisos e toda a contradição que viver, por si só, já tem. Namastê!

M. Kikuti

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2 comentários sobre “Entre vitae e mortis – Coluna nº 60

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