Na agonia ou na folia – Coluna nº 61

Há quem goste de Carnaval e há quem não. Minha mãe nunca gostou. E há um porquê: minha irmã morreu justo nesta época.  Então, a grande folia é um momento de luto, uma dor revivida ano após ano.
No último domingo, pediu-me para acompanhá-la ao cemitério. Já são 40 anos. Faz tanto tempo, mas para ela parece que foi ontem. Uma ferida que não cicatriza, passe o tempo que for. Diante do jazigo cor de rosa na ala infantil, fez uma oração silenciosa. Era de manhã e uma bonita luz incidia sobre o túmulo. Eu senti sua dor, embora não tenha demonstrado. Ficamos ali por alguns momentos e antes de irmos embora, depositei em um vasinho uma flor de papel crepom que ganhei de uma senhora querida. Uma flor feita com esmero, cor de rosa como o túmulo, agora um pouco desbotado com o passar dos anos.
Não falei nada, porque o silêncio aquieta o coração. Peguei minha mãe pela mão e pensei que, talvez, se não tivesse havido esta perda, eu não estivesse ali para amenizar-lhe as lágrimas. Por desígnios maiores, que não se contestam, eu pude vir ao mundo depois de alguns anos para aplacar um pouco o que não se enxerga, mas se sente no fundo da alma.
“Mulheres fortes são escolhidas para aguentar tamanha dor”, falou uma vez uma professora de yoga, ao comentar das que perdem um filho. Verdade. Embora seja uma dor que não se adjetiva, somente uma mulher de grande valentia, de imensidão de luz, aguenta o tranco da inversão do ciclo natural das coisas, da abdicação de um amor maior por algo superior, que não se conhece e, por vezes, não se compreende. E não dá para se contestar, porque não somos donos do amanhã e nem do dia de hoje que escorre, minuto a minuto, sem que saibamos para onde iremos.
Embora haja o luto dos meus pais, tive a oportunidade de apreciar um pouco o Carnaval. Há coisas lindas para serem vistas, por mais que muitas das antigas tradições tenham se desvirtuado com o apelo sexual que tanto seduz as pessoas. Mas samba é alegria, é cultura, é celebração. É música que envolve e que apazigua as lamúrias bobas do dia a dia.
Todos têm o direito de celebrar. E a vida ainda é um dos nossos maiores presentes. Que saibamos nos divertir com moderação, resguardando a nossa integridade e o melhor de nós mesmos, pois arrependimentos são pesos que fazem diferença no dia de amanhã. Que possamos estar na avenida da vida, no bloco da alegria, distribuindo as mais belas demonstrações de amizade, solidariedade, afeto e, principalmente, amor. Porque o bloco passa. E para uns, pode passar depressa demais. Namastê!

 

M. Kikuti

 

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8 comentários sobre “Na agonia ou na folia – Coluna nº 61

  1. Triste,bonito,…um relato, bonito, e delicado…Sinto pela perda porque nenhuma mãe deveria sofrer e nem sentir essa dor de ver um filho partir…Bjosss

  2. Uma amiga minha teve essa tristeza duas vezes. Foi agraciada abençoada com gêmeos. Mas, sim é uma dor que somente mulheres fortes aguentam… Que a cada época o coração da sua mãe possa ser acalentado e confortado por Deus…abs Kikuti

  3. Querida Mônica, realmente nada é acaso nesta vida, quando minha doce e ESPECIAL amiga Kelly, me falou sobre seus artigos e tive o privilégio de ler: Qual é sua felicidade!!! me identifiquei com você… E ontem (27/02/14), novamente, minha doce e ESPECIAL amiga Kelly me trouxe o jornal para ler seu artigo e me disse: “é especial para você…” comecei a ler não contive as lágrimas… exatamente na Páscoa de 2005, o meu anjo Thais (na época com 12 anos) partiu após 15 dias de internação (lupus sistêmico), sem apresentar nenhum problema de saúde anteriormente, graças a Deus…. sempre vendeu saúde… fazia ballet clássico, natação e principalmente soube viver intesamente seus 12 anos aqui na Terra… quantas vezes perguntei a ela, sem imaginar por um segundo o que aconteceria: “filha, porquê você tem tanta pressa de viver.?…” e Deus também me deu a graça de ficar com outro anjo, seu irmão Gustavo, hoje com 24 anos, anjo como você Mônica que como já citei outras vezes em respostas aos seus artigos: faz uma enorme diferença na vida das pessoas… Sua mãe com certeza, é uma guerreira e também privilegiada, tem você para acalentá-la. Um beijo do tamanho do amor de Deus para você, Anatália

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