Irmanando-se no bem – Coluna nº 66

ImagemAlém do ataque terrorista do 11 de setembro, com aquela gente pulando do edifício em chamas, uma imagem que ficou na minha cabeça foi o modo como os japoneses se portavam – de forma ordeira e respeitosa – para pegar comida após o tsunami. Havia uma dor coletiva respeitada no olhar ao outro, vendo-o como irmão. Irmão por parte de Deus.
Lá do outro lado do mundo as coisas são respeitadas e as leis funcionam. Existe educação e um respeito que não está nos bancos escolares, mas vem de casa, de um estilo de vida. No Brasil somos solidários, mas não respeitamos muita coisa. Somos calorosos, mas esfriamos quando pensamos de forma egoísta e em tirar vantagem própria a todo custo. Porém, talvez seja na dor que nos devotamos a exercitar o sentimento de humanidade, que deveria permear todas as nossas ações.
A fragilidade e o medo nos aproximam, irmanando-nos na coletividade de estarmos vivenciando as mesmas coisas, as mesmas dores. E nestas horas a gente conhece o outro. A gente se abre, sem as covardias diárias da exposição de nossos sentimentos a quem não se conhece. A gente tira a pedra do sapato, o jugo dos ombros, para desnudar-se das hipocrisias e reconhecer, no outro, a si mesmo.
As últimas semanas têm sido difíceis. Minha mãe internada, sensível e temerosa. Uma senhora que até então nunca tinha ficado doente, que nunca tinha passado uma mísera noite no hospital, olhava-me com o desalento, destes de como se fosse a última vez. Mas ela não é de se entregar. Coração frágil, mas pulsante, oferecia-me os sorrisos e a esperança de que a “hora não era agora”.
Do lado dela, uma outra família em espera por recuperação. Os mesmos olhares, as mesmas expectativas e as conversas para “animar” o tempo, na rotação do interminável. Mas aí, nos diálogos, na simplicidade descontraída, descortinam-se pessoas de bem, anjos que talvez não se conhecesse em outra hora senão esta, delicada e introspectiva. Pessoas simples, mas grandiosas em essência, com sorrisos e orações genuínas para quem acabou de se conhecer. Pedidos, recados, acolhidas. Abraços de quem leva a esperança para dentro do peito e a transmite no toque reconfortante e em pequenas palavras: “Vai ficar tudo bem.”
E, em um cenário de doença, a gente enxerga a vida reerguendo-se, reconstruindo-se com os sentimentos que nunca deveriam nos abandonar, como a esperança. E a esperança é um sentimento coletivo, que nos aproxima em sensibilidade, em corrente de fé e de bem. De amor e de paz. De café e pão com manteiga. De sorrisos e lágrimas. De vozes e silêncio. E irmanando-se de bem é que seremos melhores conosco e com os outros. Muito obrigada! Namastê!

M. Kikuti

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10 comentários sobre “Irmanando-se no bem – Coluna nº 66

  1. Monica,eu passei por isso,em Outubro do ano passado,minha mãe ficou internada,de repente,com trombose,ela nunca tinha sido internada,tbém!!,Foi um susto,pq foi no dia do aniversário da minha irmã..graças a Deus ela esta bem,em casa,se Deus quiser e lee há de querer,ela vai completar 80 anos em Junho,enfim,força força e força..pq sei o que está sentindo,tá?? apesar de nos conhecermos virtualmente,já te considero uma amiga querida!!!Se alimente,durma,faça seu trabalho,pq ela está sendo cuidada…Fica com Deus Bjossss Carla

  2. Olá “QUERIDA E ESPECIAL Mônica”, o que te dizer??? Sabemos, melhor que ninguém, que existem momentos, que basta este gesto tão LINDO E OPORTUNO, que você, como sempre, muito intuitiva, colocou no desenho do texto: SEGURAR A MÃO…. OLHAR NOS OLHOS e encontrar tudo, onde não conseguimos escutar palavras, mas o que realmente faz sentido: O AMOR E TODO SENTIDO DA VIDA, nestes breves “segundos” eternos…. FORÇA QUERIDA AMIGA.

  3. Mônica, leio toda semana sua coluna do jornal e encontro em suas palavras sabedoria, paz e força. Tenho certeza que tudo ficará bem,pois, tudo na vida é “fase” e essa “fase” também irá passar para você.Um forte abraço de um fã!!!!

  4. Me emocionei.
    Vivo uma situação parecida com minha avózinha, que mesmo debilitada, jamais deixou de lutar pela vida.
    Deus abençõe vocês grandemente.

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