As fagulhas de maldizer – Coluna nº 68

Já passava da meia-noite quando decidi tomar um café numa noite destas. Em um bloco de anotações, um monte de coisas por dizer, ideias, sensações e até preocupações. Enquanto a caneta de ponta porosa não anunciava nenhuma nova palavra, abri um livrinho de orações para refletir os episódios que se descortinavam intensamente nestas semanas árduas de trabalho-hospital, hospital-trabalho.

Duas mulheres que não estavam tão perto decidiram mudar de mesa e sentaram-se quase ao meu lado. Até então, os minutos transcorriam com a tranquilidade da mente que se apaziguava com a emoção das palavras a serem escritas. Só que uma voz quebrou o encanto. Era a da interlocutora da mesa ao lado.

Inevitável não ouvi-la. A voz estridente, nas falas em 300 quilômetros por hora, anunciava uma conversa desconcertante. Havia ali uma energia estranha, que se dissipava como espinhos lançando a esmo fagulhas de maldizer. Logo ela disse: “Você sabe a fulana? Então, veio me abraçar e não queria me largar mais. Não me soltava de jeito nenhum! Uma falsa! Falsaaa, falsaaaa”, dizia e, em cada repetição, a ênfase era maior. Parecia que sua voz reverberava numa vibração perturbatória. Eu já não conseguia me concentrar.

Falou sobre alunos, pais. Deduzi que fosse professora ou que trabalhasse numa escola. Talvez fosse funcionária pública. O fato era que boa parte do que saía dela eram ofensas prescritas, julgamentos e sentenças arbitrárias. Nada de positivo. Era como se houvesse uma nuvem negra pairando sobre a mesa, embora a outra mulher pouco falasse.

Comecei a escrever algumas palavras, mas ainda assim a vibração que vinha dali parecia que se agigantava diante de mim, impossibilitando que houvesse algo maior do que a vergonha alheia, do que uma tênue tristeza diante da falta de amor daquelas frases construídas em uma contínua desconstrução do outro. E tantos de nós temos de conviver com pessoas assim: cheias de tudo o que é ruim e vazias de tudo o que é bom.

Também nós, muitas vezes, nos atiçamos em falar mal dos outros, conduzindo conversas para o vexatório fim que nos condena. Se podemos calar, por que maldizer? Por que vibrar na energia negativa se temos tanto a nos sintonizar na positiva?

O café estava tomado e havia nele o gosto de compaixão que devemos ter diante do condenável dos outros e de nós mesmos. Como o escrito do calendário: “Não há força mais poderosa no universo que o amor.” E se aquela mulher tivesse um pouco mais, nem que fosse uma xícara, sem dúvida, não teria despejado tanta amargura na aurora que se anunciava. Portanto, que tomemos mais café, mais xícaras do que é bom. Com amor, com a doçura das coisas e do que a gente traz em nós. Namastê!

M. KIKUTI

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2 comentários sobre “As fagulhas de maldizer – Coluna nº 68

  1. Oi Mônica…concordo com você…deveríamos observar nossos pensamentos e só dar asas aqueles que nos fortalecem,mas infelizmente né…um forte abraço!!!

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