Desilusão do desencontro – Coluna nº 80

Sabe aquele relacionamento burocrático, que parece expediente bancário: tem hora para abrir, fechar, fazer balanço, passar o dedinho no ponto eletrônico, meta para cumprir? É… há pessoas que têm vivido tudo isto, cumprindo protocolos inventados sem qualquer criatividade, e ainda têm a cara de pau de dizer que “é o que tem para hoje”. Parece o repeteco da comida no dia seguinte, quando você não tá muito a fim, mas vai ter que engolir. Típico dos casais que se suportam no dia a dia, porque não têm coragem de sair do conforto do conhecido e encarar a realidade com a crueza que se espera dos mortais que não têm sangue de barata.
Uma hora ou outra, aquele revés que se espera, mas não se acredita, acontece. E daí tudo vira desilusão amorosa. Desilusão amorosa é um negócio triste, ruim, cavernoso. Mas, posso dizer, tem algo ainda pior: a desilusão do desencontro. É aí que a gente desenrola um tapete cheio de sentenças, empoeirado pelos desejos que vêm sendo a tônica de uma vida inteira. O problema é que a tônica tem gás. Mas, se deixar a garrafa aberta, ao “Deus-dará”, perde a graça. Não é mais tônica, não é mais nada.
Não sei se o destino é traiçoeiro, como muito se diz, ou se as coisas acontecem mesmo para solapar aquela expectativa que não deveria ter nascido. Expectativas, por vezes, são árduas lutadoras. Criam raízes, se fixam com uma propriedade única, inestimável. Mas, também, quando a gente as corta, fazem estrondos. É como uma floresta vindo abaixo dentro da gente, abrindo clareiras de um vazio que sufoca. Há quem sofra para o replantio. E há quem não plante mais nada e nem mesmo se dê conta de que o amor, por mais difícil que pareça, sempre vale a pena.
A desilusão do desencontro é pior que café frio, que sal no lugar do açúcar. É a incapacidade de retribuir. E o desencontro está ali na declaração de amor de quem não se espera enquanto quem se deseja esnoba a mais sutil investida. É o desencontro do querer e do acontecer. É o distanciamento de gente e sentimentos, como se ambos rumassem em direções contrárias, sem direito a rever a rota.
A lei do desencontro é assim, desconexa. Mas é verdade que pacifica uma hora ou outra, que estenda a bandeira branca. Porque ainda há esperança nos encontros. E que estes, sim, sejam muito maiores do que estar na mesma direção, lado a lado. Que sejam encontros, frente a frente, em que não se tenha quem seja o melhor. Mas que se encontrem as almas. Sem desilusão. Sem protocolos. Só com a pureza de espírito. E isto é o bastante. Guarde. Aguarde. Pelo teu encontro. Sublime encontro! Namastê!

M. KIKUTI
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2 comentários sobre “Desilusão do desencontro – Coluna nº 80

  1. Mônica, acredito que os desencontros são fruto de acharmos:”fulana(o) deveria ser…”, “fulana(o) deveria ter…” ou de as pessoas não nos enxergar do jeito que gostaríamos… mas, acho que devemos tirar proveito dessa realidade e gastar energia com pessoas que tem prontidão de estar junto a nós, rir e falar sem cobranças… ou como você disse em um texto, só “sentir”, né? até mais!!!!

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