Desfavoreça – Coluna nº 83

As palavras trazem uma inquietude única quando nos tiram do conforto do óbvio ou trazem a representação subjetiva de algo que não se imaginava. Presto atenção nelas e em como são empregadas nas conversas cotidianas, sobretudo, nesta era de mensagens instantâneas, sentimentos instantâneos e, por vezes, desedificantes. Uma destas me trouxe a redescoberta de um vocábulo até então esquecido nos recônditos passados. Trouxe-me uma interpretação que a gente tem dos vocábulos desta enciclopédia da vida, onde cada página é a impressão de sentidos, em letras garrafais ou diminutas, negrito ou itálico, com espaçamento ou linha em branco, alinhadas de um lado ou apenas ao centro.
“Você está aplicando a lei do que te favorece”. Na frase enviada e lida, o “favorece” chegou como uma mina terrestre explodindo em campo de girassóis. Não lembrava mais desta palavra, a não ser naquelas papeladas burocráticas ou no contrato de seguro de vida: favorecido. Uma coisa que remete a um significado frio e calculista, com gosto de café amargo e gélido.
O favorecimento, por si só, tem uma conotação negativa. É o mesmo que tirar proveito ou vantagem de algo. E quando a gente tira algo de alguém, que não era para ser nosso, é como dar uma rasteira. É ser desleal. É como aquele colega de trabalho que consegue escapar de todas as enrascadas, porque é favorecido pelo chefe. E se é favorecido, é porque tem vantagem injusta, quiçá, inconcebível. Sem mérito algum.
Favorecer-se é valer-se, servir-se, aproveitar-se. Embora haja outros significados, “favorecer” é algo que se assemelha ao que uma horda de desonestos faz diante do poder ou da ganância. É a matança dos bons costumes, dos sentimentos genuínos.
Na vida, há gente que se favorece de tudo, inclusive, herda um favorecimento, seja pelo nome ou apadrinhamento que lhe abre portas com chave de ouro enquanto para qualquer outro, a porta está lacrada a ferro fundido.
E há um mundaréu de gente que aplica mesmo a lei do que favorece no dia a dia, seja nas palavras ou nas atitudes. É justamente a pessoa que “rouba” sua vaga no estacionamento do shopping, que corta fila no supermercado, que não devolve o troco a mais dado pela operadora do caixa. É a pessoa que fala que te ama, mas, a qualquer brecha, dá uma puladinha de cerca.
É preciso desfavorecer o mal, a falta de educação, os espertalhões, a descrença, a sordidez e a insensatez. É preciso beneficiar o mundo com amor. Porque ele pode tudo. E não favorece: só enobrece! Desfavoreça! Namastê!

M. KIKUTI

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2 comentários sobre “Desfavoreça – Coluna nº 83

  1. Mônica, li apenas 2 de seus textos na coluna do jornal Metrô News, e simplesmente fui fisgada pela sua escrita, pela sua maneira de enxergar as coisas que nos cercam. O texto sobre o ‘perdão ser como o mel’ é absurdamente fantástico e eu compartilho de sua idéia! Escrita inteligente e com uma visão muito peculiar. Por favor, continue nos alimentando com sua admirável e ao mesmo tempo simples, maneira de ver o mundo! Com certeza, vou ler os próximos. Bjs

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