Deixe ficar – Coluna nº 84

A vida descortina respostas o todo tempo diante de nós. Mas, é preciso atenção. É preciso desprender-se daquilo que passou e já não importa mais, liberando espaço para as novidades. É preciso escutar, observar. Enxergar que as miudezas trazem consigo aprendizados graúdos. Destes que a gente não esquece.
Nos diálogos corriqueiros podem surgir frases inspiradoras, quando se abre uma brecha para tirar as respostas feitas da ponta da língua. E destas brechas, abre-se um mundo totalmente original, onde a gente quer permanecer, sem medo e sem vazio.
Numa despedida, eu disse ao senhor da avícola – que lembra um pouco o meu pai, não no aspecto físico, mas na alma: “Fique com Deus”. E ele me respondeu: “Ele já está aqui”. Gostei da resposta e disse: “Se ele está não o deixe ir embora”. E nós dois sorrimos.
Na volta para casa, enquanto caminhava, pensei na compaixão, que deveria ser infinita tanto para nós mesmos quanto para os outros, e na espiritualidade, que não precisa advir de religião: é algo que a gente aprimora com amor. Lembrei-me de muitas pessoas que têm vivido na sombra, deixando a luz ir embora ou mesmo deixando-a apagada, sem se dar conta nem de onde fica o interruptor.
Lembrei-me dos que deixam a porta fechada para o bem e que o escorraçam escada abaixo, com a brutalidade, a falta de respeito, a raiva desmedida. E a raiva é uma energia que se propaga como fogo quando você a deixa atingir. Dá um negócio esquisito. A gente sente a raiva do outro no olhar, na voz, na linguagem corporal. E uma destas raivas eu senti, reverberando de um homem que foi pedir um salgado na padaria. Em tudo o que ele disse, não havia cordialidade, apenas rispidez de fala e de espírito. Mesmo quando saiu, deixou aquele negócio estranho no ar, como um resquício de raiva. E este resquício poderia ser amor. Poderia ter sido um perfume. Poderia ter sido um sorriso ou apenas um “muito obrigado”, dito com o coração. A gente sente quando as palavras soam verdadeiras, porque emanam algo bom.
Dos que exalam raiva ou coisas ruins é preciso ter compaixão. É preciso pensar que, enquanto reverberamos sentimentos bons para os outros, os sentimentos ruins vão ter dificuldade em transpor nosso escudo. E, como Deus é bondade infinita, esta luz de amor também atinge quem está na sombra, mesmo que seja um lampejo. Num lampejo as pessoas também podem despertar da escuridão. Num lampejo, ainda há esperança.
Deixe o teu cheiro de amor por onde quer que vá. Imprima teu sorriso na vida do outro para que ele também possa sorrir. Não deixe o que é bom ir embora. Arrume morada e nunca feche a porta, porque ele não quer ser visita. Quer ser de casa. E iluminar! Namastê!

M. KIKUTI

84_070814

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s