Menos um – Coluna nº 85

Tem gente que oferece migalhas e outros que partilham o pão, mesmo que este seja o único que dispõem. Há os que em nada acreditam e outros que têm a fé como propulsora da vida. E as diferenças nos fazem enxergar e sentir, cada instante, de maneira diferente. Por vezes melhor, noutras, pior. Mas, a magia da vida se descortina com o aprendizado rotineiro escondido por trás das nuvens, onde nada é por acaso.
O dia estava lindo. Fazia sol e o céu parecia ainda mais azul. Vi um gatinho preto deitado diante de um portão. Tentei chamá-lo, afinal, quem gosta de gato sempre acha um pretexto para fazer amizade com um bichano novo. A cabeça do gatinho estava um pouco escorada na grade e os olhos entreabertos. Observei-o, tomando distância da morte, embora houvesse uma esperança de que ele estivesse vivo. Enquanto eu ainda pensava nesta possibilidade e absorvia a cena que nunca se quer ver, um homem apareceu ao meu lado. Era um destes moradores antigos da rua. Olhou para o gato e sentenciou: “Está morto! Menos um para fazer algazarra nos nossos telhados.”
Sabe quando se espera uma palavra de conforto e alguém chega e te dá uma pedrada? Foi mais ou menos isto que eu senti, embora eu não quisesse acreditar que ele poderia ser tão insensível. Talvez fosse o momento ou mesmo a antipatia por gatos. É certo, porém, que a gente não ama o que não conhece. E isto também vale para nós mesmos: se não nos conhecemos, pouco nos amamos. Assim, como vamos amar os outros?
Lembrei-me das crueldades que ousamos dizer e fazer, enquanto poderíamos ser “menos um” fazendo. Lembrei-me das discórdias, das fofocas e brigas sem sentido que protagonizamos, enquanto poderíamos ser “menos um” integrando o time dos insensatos. Lembrei-me das más influências e do oportunismo nocivo, que ganham quase sempre “mais um”. Lembrei-me de quanto dói ter “menos um” na seleção dos de bem, dos que respeitam e dos que não perdem tempo com baboseiras, porque sabem que a vida é muito curta e precisa ser bem vivida desfrutando-se da singeleza e magnitude de todas as coisas.
Que sejamos “menos um” a lamentar pelo que não temos, mas “mais um” a ter gratidão pelo que se tem. Que sejamos “menos um” no mau humor e “mais um” a distribuir alegria, com coração generoso e disposto a servir, por pura humanidade. Que sejamos “menos um” para destruir e “mais um” para construir um mundo mais justo, a começar pelo mundo que existe dentro de nós. E que sejamos “menos um” para se desamar, mas “mais um” para se dizer “amo você”! Namastê!

M. KIKUTI

85_140814

Anúncios

2 comentários sobre “Menos um – Coluna nº 85

  1. Bom dia minha querida Japinha.

    Gosto do que escreves. Cada vez que a leio um sintoma melhor aflora. O texto em si, cada palavra do “Menos Um”, cada reflexão posta é diferente do que a mera pronúncia. É um texto com cor e aroma de sentimentos puros para ser degustado e começar o dia “desfrutando da singeleza e magnitude de todas coisas” e aí eu acrescento: que nos tocam profundamente a alma.

    Fico feliz por ter encontrado alguém com tamanha profusão e rara eloquência em dividir pensamentos já tão esquecidos em nossos dias.

    Um beijo e um forte abraço e até a sua próxima reflexão.

    1. São comentários como este que me emocionam muito! Obrigada, Clélio! Que sejamos “mais um” no time dos de bem, do que vêem o mundo com os olhos da alma e, portanto, têm muito mais encanto e muito mais emoção. Que isto nunca nos falte e que só nos recheie de muito amor e pureza! Que assim seja! Namastê!
      Até breve, meu querido!
      Beijo,

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s