E se fosse a última vez? – Coluna nº 1, Fase 2

Por aquele prazer momentâneo de tomar um bom café, fui a uma cafeteria, destas elegantes, perto de dois colégios de endinheirados. Mal entrei e vi duas mulheres conversando. Talvez nem tão animadamente, mas conversavam.

Pedi meu café e sentei-me para espera-lo ao lado das duas. Uma tinha voltado de viagem ao exterior. Fazia contas, falava de valores em dólares canadenses. Entregava frascos de perfume para a interlocutora e mais parecia reunião de tupperware do que a chegada da muamba aromática.

Vestindo uniforme, um garoto de 12 anos, não mais que isto, entra na loja. Dá alguns passos e logo se posiciona ao lado de uma das mulheres. Ela olha para o garoto com a austeridade de um sargento.

– “Não quero você aqui do meu lado!”. Era um vômito de palavras, talvez um refluxo.

A amiga da mãe, prontamente, olhou para a cadeira extra, com as bolsas de ambas e outros embrulhos e não se demorou: – “Nem tem lugar para sentar”, sentenciou a amiga.

– “Tá mãe. Eu vou voltar para a escola”, disse o menino, um tanto acostumado com aquela grosseria maternal e com a solidariedade da amiga da mãe.

O diálogo durou menos de um minuto. O menino saiu. Detrás do balcão, uma das atendentes me olhou como se pudesse dizer: “Você viu isto?”.

Observei o menino atravessando a rua e voltando para a escola, de onde, depois daquilo, deveria ter ficado até morrer.

A frieza daquelas palavras me incomodou. As palavras têm poder. Podem trazer alento, gerar admiração, cicatrizar mal entendidos e machucar, ferir. Ou podem apenas doer fundo na alma, dilacerando uma vida inteira de crenças e amores.

Mas, e se aquela fosse a última vez? Se a última frase daquela mãe para o filho fosse mesmo “Não quero você aqui do meu lado!”? A inconsciência coletiva, esta da qual eu também me identifico, é cruel. Assassina. É executora das sentenças de morte a que estamos acostumados a lidar, sem um pingo de lucidez! Quantas vezes dissemos e dizemos palavras envoltas em raiva, grosseria, orgulho e não pensamos na última lembrança que vamos ter? Ou que o outro terá de nós?

Que a última frase seja sorriso. Que a última frase seja ternura. Que a última lembrança seja vontade de ver de novo. Que a última vez seja vista como se fosse agora, porque ninguém sabe o que vai ser de nós, de agora em diante.

Que eu tenha boas lembranças. Que você também tenha de mim. E que se hoje fosse o fim, eu tenha tempo de dizer que amei você. Com o olhar, com o sorriso, com uma palavra. Que é sempre de vida. Porque é ela que vai ficar para sempre nas boas lembranças.  Namastê!

M. KIKUTI

words of love

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Um comentário sobre “E se fosse a última vez? – Coluna nº 1, Fase 2

  1. A inconsciência coletiva! A falta de tempo e o tempo corrido que as pessoas transformaram em vital e esqueceram-se da gentileza, do amor, da ternura e razão do tempo preciso, aliás, nem mesmo se olham nos olhos…

    Um grande abraço Japunska linda. Adorei a sua cabeça liberta de uma semi careca coberta por chapéu. Beijos.

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