Vou te esperar no domingo

hot weather

O calor era o sentimento maior dentro e fora de mim. As janelas do ônibus pouco ventilavam e aquela brisa para refrescar era o meu maior desejo. Era quase aquele pedido escondido no meio das preces diárias.

A cobradora abaixava a cabeça sobre o caixa, talvez pedindo algum alento a São Pedro ou tendo a certeza que a sucursal do inferno era ali mesmo.

Havia um lugar vago ao meu lado. Um senhor de olhos azuis bem claros se aproximava, enquanto o ônibus ainda estava em movimento. Ele ia devagar, com a morosidade inerente àquela idade, que não ouso deduzir. Poderia ter uns 80.

Sentou-se ao meu lado e sorriu. “Oi linda! Desculpa me sentar aqui”.

Logo, me falou sobre o calor e era certo que queria continuar uma conversa. Sua pele era alva, os olhos se destacavam e seus dentes pareciam que eram mesmo os dele. Não eram prótese.

Perguntou onde eu morava. Fornecer meu endereço para quem não conheço? “Não converse com estranhos”, aconselhava minha mãe na minha infância.

Adultos sempre conversam com estranhos e já bastam as cartas de cobrança que chegam indiscriminadamente na minha residência. Os cobradores de dívidas sempre sabem onde a gente mora…

Pensei rapidamente numa resposta falsa que ficasse ali no caminho do ônibus. O velhinho sorriu, ficou tentando adivinhar onde seria e eu dei uma de louca.

Aproveitando o ensejo, me disse onde morava. Falou o nome da rua, que seria bem conhecida no bairro. Contou que embora morasse ali, frequentava uma igreja católica em outro bairro.

“Lá tem um coro, menina!! É muito lindo! E tem um rapaz do teclado, que toca com a alma. O-ooo-reeee-mos“, disse, cantando e dedilhando um teclado no ar. Seus olhos brilhavam e seu sorriso era, de fato, encantador.

Falou que vai lá todo domingo na missa das 10 horas da manhã. E que seu irmão ajudou a construir uma igreja vizinha. Ele também tinha o desejo de colaborar e terminar a cúpula da igreja, mas faltava-lhe dinheiro. E aí seu semblante mudou um pouco. Era uma certa frustração.

Depois, perguntou meu nome e em seguida se apresentou. Geraldo. Falou o sobrenome, mas esqueci (ainda bem, vai que alguma netinha dele queira pedir direito autoral, né, não? rs). Mas era um nome bonito. O conjunto, sabe.

Disse que queria me contar uma piada com meu nome, mas que não ia dar tempo. Pediu que eu fosse na tal missa, com o “marido e seus filhinhos”.

“Vou te esperar lá. Fico sempre do lado esquerdo, viu?”, falou, como quem convida um amigo íntimo para o café da tarde.

Antes de sair apressadamente para a porta dos fundos e descer no ponto, pediu para que eu lhe rezasse uma Ave-Maria. “É pra alcançar uma graça”.

E saiu muito mais ágil do que entrou.

Cumpri o pedido da Ave-Maria, logo em seguida, para não correr o risco de esquecer.

Afinal, oração não se nega a ninguém.

Nem copo d’água.

Nem história de um dia de calor.

Dentro do busão.

 

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4 comentários sobre “Vou te esperar no domingo

  1. Oi…faltou só mencionar o nome da Igreja…fiquei curiosa…pois sempre vou as missas aos domingos…sou católica praticante…me responda mesmo que em particular. Ficarei no aguardo. Bjs….

  2. Que senhorzinho fofinho! Essa história me lembrou de uma senhora que eu também conheci no bus um dia desses… ela falou sobre a filha e suas preocupações de mãe. Lembrei da minha mãe. A senhora me disse até onde morava, do jeitinho desse senhor que vc conheceu. Foi bom dar atenção a ela. Crônicas do dia a dia são tão refrescantes, pois fazem a gente querer ser um pouquinho melhor a cada dia ❤️

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